China:
como será possível alimentar este
gigante?
por
Mauro Kahn Pedro Nobrega do Clube do Petróleo
No atual panorama mundial,
falar em transformação e crescimento
é falar da China. O país, com muito
mais de um bilhão de habitantes, é
um exemplo único de progresso na história,
um país que caminha rumo ao topo do cenário
geopolítico com uma velocidade surpreendente
e aparentemente incontrolável. No entanto,
é importante lembrar que toda evolução
carrega consigo um custo, e o custo chinês
é diretamente proporcional ao tamanho espetacular
de seu desenvolvimento. Os sintomas já
podem ser observados: falta de água potável
para parte da população, poluição
atmosférica, demanda energética,
espaço cada vez mais limitado para a agropecuária
(esgotamento do solo e crescimento das cidades),
entre outros. Enquanto o mundo observa com expectativa
o fenômeno chinês, o governo (em conjunto
com diversas empresas multinacionais) vem tomando
atitudes para equilibrar esta situação
e impedir uma possível desorganização
do país, que poderia até implodir
caso continuasse no atual estado de desequilíbrio
dos seus recursos naturais.
No caso dos recursos hídricos, o problema
é sério por diversos fatores. Em
primeiro lugar, a demanda é naturalmente
muito alta: a China detêm 7% da água
do planeta e mais de 20% da população.
Esta não seria uma proporção
tão grave se 75% dos seus rios não
estivessem poluídos e se o país
não contasse com um sistema pouco eficiente
de distribuição. Para solucionar
o problema, o governo conta especialmente com
a otimização desta distribuição
e com o tratamento da água poluída,
prevendo para isto um orçamento estimado
em 125 bilhões de dólares. Somado
a isso, o governo ainda deve conviver com a vontade
separatista do Tibet, região com reconhecido
potencial hídrico.
Importante lembrar que esta questão
afeta ainda países vizinhos da China, que
por si só já sofrem com graves problemas
no setor hídrico. O Cazaquistão,
por exemplo, além de ver sua água
reduzida pelo mau uso e pela poluição,
ainda assiste aos chineses desviarem parte das
águas de rios comuns aos dois países,
que assim chegam ao seu território bem
menos caudalosos. A China talvez fizesse o mesmo
com o rio Brahmaputra, que atravessa também
a Índia e Bangladesh (países onde
menos da metade de sua "superpopulação"
consegue ter acesso à água potável
com regularidade). Acreditamos que, neste caso,
seja a força política do governo
indiano que ainda não permitiu a interferência
neste importante rio.
A água também consiste
em um sério problema para a agricultura.
Embora a China conte com um bom número
de terras aráveis, não dispõe
de água suficiente para investir em todas
estas terras. Um pouco por esta razão e
um tanto por necessidade, o governo chinês
acaba por estimular o estabelecimento de novas
cidades em regiões próprias para
o cultivo e a pecuária.
Em outro nível de necessidade,
a China também sofre com a demanda energética.
Em 20 anos, o consumo de petróleo já
passou de 2 milhões para mais de 7 milhões
de barris por dia, tornando o país o segundo
maior consumidor do mundo (atrás somente
dos EUA). A produção, em contrapartida,
subiu apenas 500 mil barris por dia, com um grande
declínio nas suas reservas de petróleo.
O país optou por investir pesado no downstream;
a maior parte das suas refinarias passa por reformas
ou estão sendo completamente trocadas por
outras maiores e mais sofisticadas. Um problema
antigo da China é a dificuldade para refinar
o óleo pesado, o que em breve deve ser
superado (representando no futuro uma excelente
oportunidade para o Brasil, o qual poderá
se tornar um importante exportador de petróleo).
Hoje um projeto de 5 bilhões de dólares
envolve a construção de uma refinaria
chinesa em Guangzhou e que será capaz de
refinar 300.000 barris por dia.
Muito mais abundante para os chineses
do que o petróleo é o carvão,
um recurso do qual a China é, disparada,
a maior consumidora (mais de 2 bilhões
de toneladas contra 23 milhões do Brasil).
O carvão representa cerca de 70% do consumo
energético do país e a China apresenta
reservas estimadas em mais de 125 bilhões.
Com o ritmo de consumo tendendo a crescer ainda
mais, o R/P (reserva/produção) do
país pode não durar mais do que
50 anos.
Como a pressão ambiental
vem crescendo ao mesmo tempo em que as reservas
de carvão apontam para esse esgotamento
em meio século, a atitude do governo chinês
tem sido a de buscar fontes alternativas e, simultaneamente,
declarar seu apoio ao projeto de redução
de emissões do carbono. O que não
se sabe é o quanto o meio ambiente do planeta
e a própria China poderão suportar
até que o país consiga se desvencilhar
desta dependência em relação
ao carvão.
A poluição e o caos
urbano podem ser bastante agravados com uma tendência
que vem há anos se mostrando perigosa.
Segundo dados recentes, de 1995 a 2005 a frota
de bicicletas na China caiu de 670 milhões
para 435 milhões, enfrentando o significativo
aumento no número de carros privados (4,2
milhões para 8,9 milhões). Se esta
tendência se confirmar – o que parece
inevitável com o aumento da renda per capita
e com a ocidentalização dos costumes
chineses – o aumento no consumo de derivados
do petróleo será muito alto e as
cidades deverão ser todas completamente
replanejadas. Com o custo barato dos carros chineses,
é provável que em breve o mercado
estrangeiro também se torne um excelente
alvo para uma "super-eficiente" indústria
automobilística chinesa.
A maior preocupação
gerada pelo aumento da frota de carros chinesa
é evidentemente causada pela mega população
do país. Esta superpopulação
leva o governo a agir de maneira discricionária
para manter uma baixa taxa de natalidade. O que
sustenta este tipo de postura é o medo
de que a situação siga, por exemplo,
as vias indianas (onde, por razões religiosas,
o governo relaxa no controle familiar e depois
tem de lidar com problemas crescentes, como o
acumulo de lixo, a água poluída
e outras complicações resultantes
da pobreza).
Uma das maneiras através
das quais os chineses vem buscando suprir suas
necessidades é procurar soluções
dentro do próprio continente. Na Ásia
Central encontra-se o já citado Cazaquistão,
cujo potencial acesso ao petróleo do Mar
Cáspio e as boas reservas de gás
natural podem ser fundamentais para os planos
chineses. Nessa união interpõe-se
dois problemas: em primeiro lugar, os problemas
internos que a China enfrenta com os separatistas
mulçumanos em suas províncias do
noroeste; em segundo lugar, a situação
política do próprio Cazaquistão,
dividido entre a influência russa e o brilho
do mercado consumidor chinês. Fora do continente,
a China também nutre expectativas em relação
aos países africanos, importando petróleo
de países como Angola e Sudão e
investindo na agricultura em fazendas de Uganda
e Camarões.
Embora as dificuldades se apresentem
em uma escala preocupante, a verdade é
que o futuro permanece ainda em meio a um nebuloso
cenário. Para nós, não há
dúvidas de que os chineses terão,
como sempre, uma enorme disposição
para corrigir os seus problemas. O que não
podemos prever é se eles serão tão
eficazes a ponto de evitar que estes problemas
venham a comprometer seu vertiginoso crescimento
econômico.
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