Etanol
- Relação Custo X Benefício
por
Mauro Kahn
Os biocombustíveis encontram-se
hoje no centro da discussão energética
global, especialmente o programa brasileiro para
a produção de álcool –
criticado e defendido com o mesmo fervor por diversos
especialistas e integrantes do setor energético.
Deste debate, muitas vezes desviado pela desinformação
do público, decorre uma série de
mitos.
Dentre eles, resolvi selecionar
três que julgo essencialmente importantes
para levar esta discussão adiante. São
eles:
• Mito 1 – O Brasil poderá
ser responsabilizado pelo aumento dos alimentos
no mundo.
• Mito 2 - O álcool
é um combustível de extrema eficiência
e capaz de substituir o petróleo com o
espetacular aumento no preço do barril.
• Mito 3 - O álcool
é um combustível ecológico
e o planeta será favorecido por seu uso
intensivo.
Analisando o mito 1 – O argumento
é exagerado, uma vez que o aumento dos
alimentos decorre de uma serie de fatores que
independem do Brasil. Por outro lado, é
possível afirmar que esta demanda crescente
por alimentos não deixa de ser uma ótima
oportunidade para que o país venha a se
tornar o maior exportador de alimentos do mundo.
É possível visualizar o problema
quando projetamos o avanço dos canaviais
através dos estados do Paraná, Mato-Grosso,
Goiás e Minas Gerais. É certo que
o Brasil necessitará de uma organização
e controle agrários acima daquele que dispomos
hoje para impedir que essa expansão prejudique
a pecuária e culturas geradoras de grãos.
Sem dúvida alguma, a plantação
da cana-de-açúcar é bastante
rentável, apresenta resultados rápidos
e demanda investimentos relativamente menores
do que outras atividades substitutas. A cana-de-açúcar
é - de fato - uma monocultura com expressivas
“barreiras de saída”. Por outro
lado (ou justamente por isso), torna-se quase
inviável o retorno para a atividade anterior.
E, destarte, não é recomendável
colocarmos todos os nossos os ovos em uma única
cesta.
Analisando
o mito 2 – Esse é um aspecto raramente
colocado em xeque, no entanto de máxima
importância. Ao contrário do que
pode parecer a princípio, a cana-de-açúcar
não produz tanta energia quanto setores
interessados parecem sugerir.
Lembremos que um hectare (10 000 m²), caso
totalmente plantado, produz em média cerca
de 7 000 litros de álcool. Levando em consideração
que um carro movido a álcool consome, também
em média, cerca de 3 500 litros por ano,
pode-se calcular que será necessário
meio hectare para abastecê-lo.
A título de exemplo, os jardins do Aterro
do Flamengo - no Rio de Janeiro - possuem uma
dimensão estimada em 120 hectares. A partir
daí, não fica difícil imaginarmos
que, se transformássemos a região
em um extenso canavial, iríamos atender
ao consumo de uma frota com apenas 250 automóveis
(aproximadamente).
Observe
que, para atendermos ao consumo da frota de automóveis
da cidade do Rio de Janeiro - estimada em 2,5
milhões de veículos - seriam necessários
cerca de 10 mil Aterros!
Naturalmente, estes dados não excluem o
valor do álcool como combustível
complementar ao petróleo e ao gás
natural. Quem viveu a década de 80, ainda
se recorda da ajuda que o álcool nos proporcionou
em plena crise do petróleo. Entretanto,
cabe ressaltar que, naquela época, nossas
reservas petrolíferas eram infinitamente
inferiores às atuais, e que o GNV nem sequer
era cogitado no Brasil. Hoje, não se pode
mais colocar a questão sob a mesma perspectiva
e nem o mesmo contexto. Não se pode olhar
para trás.
Analisando o mito 3 – Não há
qualquer dúvida de que o álcool
propriamente dito seja um combustível muito
mais limpo do que os derivados do petróleo.
No entanto, ao aprofundarmos a questão,
este suposto ganho ecológico não
se sustenta da mesma maneira.
Em primeiro lugar, o álcool não
evita o consumo do óleo diesel, consideravelmente
mais poluente do que a gasolina (muito pelo contrário:
na realidade, ele indiretamente estimula este
consumo, uma vez que o combustível é
utilizado no transporte do álcool para
os grandes centros). Além disso, não
podemos ignorar as queimadas realizadas antes
da colheita, outra fonte expressiva de poluentes.
A conclusão a que se chega, após
todas as questões expostas, é de
que o álcool surge ideal para metrópoles
como São Paulo, onde uma frota incrivelmente
grande acaba por gerar uma poluição
insuportável. Já para uma cidade
como Manaus - que por muito tempo poderá
contar com as expressivas reservas de petróleo
e gás de URUCU - o consumo de álcool
não encontra justificativa razoável.
Mauro Kahn é analista de geopolítica
do petróleo e do meio ambiente, fundou
e atualmente gerencia o Clube do Petróleo
www.clubedopetroleo.com.br
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